‘Usava pedaço de colchão’: o drama das detentas sobre falta de absorventes em presídios

  • 13/01/2026
(Foto: Reprodução)
Dia Mundial da Dignidade Mestrual: data alerta sobre pobreza menstrual e saúde da mulher Mesmo após a ampliação do debate sobre dignidade menstrual no Brasil, mulheres privadas de liberdade seguem lidando com a escassez de absorventes e itens básicos de higiene dentro dos presídios. A falta de acesso a esses produtos leva detentas a improvisar com pedaços de colchão, panos sujos e restos de tecido para conter o fluxo menstrual —uma realidade relatada à reportagem por mulheres que passaram pelo sistema prisional e por pesquisadoras que acompanham o tema. Um levantamento feito com dados de 2023 pelo centro de pesquisa voltado à justiça e economia JUSTA, obtido pelo g1, mostra que os estados brasileiros gastam pouco menos de R$ 3 milhões por ano com absorventes para presídios femininos. O valor representa cerca de 0,01% do orçamento destinado ao sistema prisional. O estudo foi realizado após a Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado da Câmara dos Deputados votar contra um projeto de lei que tornaria obrigatória a oferta de absorventes e itens de higiene pessoal para mulheres presas. Hoje, não há uma regra nacional sobre a quantidade mínima de absorventes distribuída. Cada secretaria estadual de segurança pública define seus próprios parâmetros. Em São Paulo, por exemplo, a recomendação é de 24 absorventes por mês por detenta. Segundo a coordenadora de comunicação do JUSTA, Sofia Fromer, na prática, essas regras raramente são cumpridas. Em 2020, apenas cinco das 21 penitenciárias do Estado entregaram os 16 absorventes mensais definidos pela Secretaria de Administração Penitenciária, de acordo com levantamento do Núcleo Especializado de Situação Carcerária da Defensoria Pública de São Paulo. O núcleo afirma que, embora seja permitida a entrega de absorventes por familiares, são frequentes os relatos de insuficiência do material. A Polícia Penal do Estado de São Paulo informa que as unidades femininas distribuem, mensalmente, dois pacotes de absorventes com oito unidades cada e quatro rolos de papel higiênico. Em nota, a Secretaria de Administração Penitenciária afirma que, caso haja solicitação, o material é reposto e que familiares cadastrados podem enviar produtos por correspondência. Pão, colchão e pano sujo A educadora social do Núcleo Memórias Carandiru, pesquisadora e escritora, Helen Baum. Arquivo Pessoal Educadora social do Núcleo Memórias Carandiru, pesquisadora e escritora, Helen Baum passou três anos presa, condenada por tráfico de drogas. Segundo ela, o improviso com materiais inadequados faz parte do cotidiano de mulheres encarceradas. É comum, relata, ver detentas utilizando pedaços da espuma dos colchões para conter a menstruação. A cada dois meses, diz, elas recebiam dois pacotes de absorventes pequenos, com oito unidades cada. Para efeito de comparação, em 2024 o governo federal lançou um programa nacional de dignidade menstrual que prevê a distribuição gratuita de 40 absorventes a cada dois meses para pessoas em situação de vulnerabilidade —mais que o dobro do que Helen e suas colegas recebiam no cárcere. “Tínhamos que passar dois meses com dois rolos de papel higiênico e 16 absorventes pequenos e finos. Mal eram suficientes para um ciclo menstrual”, diz. “Às vezes, usávamos pedaços de tecido, de uniforme velho, pano sujo ou espuma do colchão. Quando recebíamos algodão, enrolávamos com barbante e improvisávamos absorventes internos.” Helen deixou a prisão em 2017. Arquivo Pessoal Helen deixou a prisão em 2017, mas a situação, segundo especialistas, pouco mudou desde então. Advogada e pesquisadora do Instituto Terra, Trabalho e Cidadania (ITTC), Michele de Oliveira afirma que a falta de itens básicos de higiene ainda é uma realidade recorrente. “Mulheres já são invisibilizadas no sistema prisional. Muitas não recebem visitas e, portanto, não têm como complementar os itens de higiene. Precisam se contentar com o que a unidade oferece —quando oferece”, diz. Riscos à saúde A dificuldade de manter a higiene adequada durante o período menstrual também traz consequências à saúde. Helen relata que infecções ginecológicas eram comuns e que o acesso a atendimento médico e medicamentos era limitado —afirmação negada pela Secretaria de Administração Penitenciária, que diz manter equipes de saúde nas unidades femininas. Durante a crise hídrica de 2015 em São Paulo, segundo Helen, a situação se agravou. As detentas recebiam uma garrafa de dois litros de água por dia para beber, se higienizar e dar descarga. Como era insuficiente, improvisavam coletando água da chuva. “Se não tinha água para beber, imagine para lavar roupa”, diz. As roupas frequentemente ficavam manchadas de sangue, e muitas mulheres deixavam de sair da cela por falta de condições mínimas de higiene. Letícia Bombom, hoje produtora de eventos, foi solta em maio do ano passado após passar 12 anos presa. Ela relata que os absorventes fornecidos eram tão finos que não davam conta do fluxo. “Só quem recebia visita conseguia passar pelo período menstrual com alguma dignidade. Eu fazia faxina nas celas e lavava roupa em troca de absorventes”, conta. “Na cadeia, somos apenas um número para o Estado. A gente recebia dois sabonetes por mês e precisava usar para lavar roupa. A pasta de dente servia para limpar o banheiro.” Gasto seria mínimo O Projeto de Lei 59/2023, de autoria da deputada Renata Abreu (Pode-SP), prevê a oferta obrigatória de absorventes e papel higiênico em penitenciárias femininas. Parlamentares contrários alegaram que o custo seria elevado. Relator do texto, o deputado Sargento Fahur (PSD-PR) afirmou que recursos públicos não deveriam ser direcionados a “privilégios” no sistema carcerário. Para o JUSTA, os dados mostram o contrário. Em 2023, os 22 estados analisados destinaram R$ 19,8 bilhões ao sistema prisional. Garantir absorventes para mulheres presas exigiria apenas 0,002% do orçamento total dos estados, segundo o levantamento. “É um custo irrisório perto do impacto que teria na saúde e na dignidade dessas mulheres”, afirma Sofia Fromer. O que dizem as Secretarias Em nota, a Secretaria da Administração Penitenciária diz ter “o compromisso com a promoção da saúde da mulher”. “Em parceria com os municípios onde estão situados, esses presídios também recebem o atendimento de especialistas e, quando necessário são encaminhadas para o SUS e para o Centro Hospitalar do Sistema Penitenciário, para acesso aos diagnósticos e tratamentos. Durante todo o ano, ainda são realizadas campanhas de saúde e prevenção à saúde da mulher, entre as quais, vacinação, ultrassom e mamografia. Nessas campanhas, ocorrem palestras e oficinas e são distribuídos entre as custodiadas material informativo com orientações sobre doenças e os cuidados. Os estabelecimentos penais recebem remessas trimestrais de medicamentos. Qualquer medicação é fornecida somente via receita médica”, conclui a nota. Procurado pela reportagem, o Núcleo Especializado de Situação Carcerária da Defensoria Pública afirma que “realiza inspeções de monitoramento nas unidades prisionais e, quando há reclamação sobre entrega insuficiente, são instaurados procedimentos de apuração pela Defensoria junto à Corregedoria Judicial dos Presídios, solicitando o reforço da entrega e a demonstração, na unidade em questão, da quantidade entregue”.

FONTE: https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/01/13/usava-pedaco-de-colchao-o-drama-das-detentas-sobre-falta-de-absorventes-em-presidios.ghtml


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