'Envelhecer': os desafios do Brasil em saúde pública às vésperas de população ter mais idosos que crianças

  • 04/02/2026
(Foto: Reprodução)
Os desafios do Brasil em saúde pública às vésperas de população ter mais idosos Demora, falta de atendimentos especializados e de profissionais capacitados. Esses são alguns dos problemas mais comuns apontados por especialistas e pacientes quando o assunto é saúde pública voltada aos idosos. Somado a isso, o desafio de se viver em um país considerado jovem, mas que envelhece rápido demais. Tema esse que, inclusive, inspirou a redação do Enem 2025. Um estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) aponta que a população idosa dobrará em apenas 25 anos no Brasil. Até 2031, por exemplo, deve haver mais idosos do que crianças. Faça parte do canal do g1 Ribeirão e Franca no WhatsApp O contexto social obriga o país a se preparar para oferecer atendimento de saúde a um número cada vez maior de pessoas com mais de 60 anos. E não apenas um atendimento, mas um atendimento que tenha ao menos o mínimo de qualidade. Esta reportagem faz parte da série "Envelhecer", um especial do g1 sobre os desafios associados ao envelhecimento da população no mercado de trabalho, na sexualidade, na saúde pública e no acolhimento institucional. Desafios Professora da Divisão de Clínica Médica Geral e Geriatria do Hospital das Clínicas (HC) de Ribeirão Preto (SP), Nereida Kilza da Costa Lima lista cinco dentre os desafios que ela considera como principais para garantir o cuidado com a saúde dos idosos: Acesso ao sistema de saúde Lima diz que a primeira questão está relacionada ao acesso desse público às unidades de saúde, ressaltando as dificuldades de locomoção de alguns. "Começando da questão do acesso, porque existem muitos idosos que estão mais fragilizados, dependentes, que precisam de ajuda para chegar até a unidade de saúde, ou precisam que a unidade de saúde vá até a casa deles. Então esse acho que é o primeiro ponto. Existem estratégias que podem melhorar isso, que já existem, que seria a estratégia de saúde da família, que vai até a residência." Vacinação de idosos no Distrito Federal Breno Esaki/Agência Saúde DF Espera por consultas O segundo ponto abordado pela especialista é sobre o tempo de espera para consultas e exames. Dados obtidos pelo Jornal Nacional por meio da Lei de Acesso à Informação apontam que vem aumentando o número de brasileiros que aguardam por cirurgias eletivas no SUS, chegando a mais de 1,3 milhão de pacientes em 2024. "Outra questão, a espera por consultas, que dependendo da localização do país, essa espera é grande, então isso é muito variável, dependendo da região, dependendo da cidade. Mas acaba tendo um tempo que às vezes o idoso não tem", cita Lima. Detecção precoce de alterações O acompanhamento mais propositivo desses idosos também é destacado. Segundo a professora, isso deveria ser aperfeiçoado para se antecipar aos problemas de saúde. "Outra questão é que quando o idoso é atendido, geralmente se corre muito atrás da questão de queixas e também de propostas curativas para alguns problemas. E o idoso, ele tem outras necessidades, que seriam de detectar precocemente alterações, por exemplo, funcionais, cognitivas, de visão, de audição, de nutrição, de humor. Então, normalmente, isso não é feito." Capacitação de profissionais Para que os atendimentos ocorram de forma mais célere e com melhor qualidade, Lima reforça a necessidade de haver mais profissionais capacitados. "Uma necessidade grande no país é realmente ter mais profissionais capacitados para o atendimento do idoso, que é a gerontologia em geral, e também os médicos que são geriatras. Então, tem essa falta de profissionais." Reabilitação dos pacientes Por fim, a especialista pontua a importância da sequência no acompanhamento dos idosos, com a implantação de mais centros de reabilitação. "Os centros de reabilitação acabam sendo distantes da maioria dos idosos. Então, não existem aquelas unidades, na maioria das cidades, não existem aquelas unidades que têm fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, mais localizadas, mais distribuídas pela cidade." Movimentação de idosos na UBS Alto de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo FELIPE RAU/ESTADÃO CONTEÚDO Perfis dos idosos Adriana Serafim Bispo e Silva, enfermeira e chefe do setor de Ações Programáticas em Atenção Primária de Ribeirão Preto, citou os motivos pelos quais o público mais idoso busca atendimentos médicos. De acordo com ela, os casos mais comuns são de: Perda auditiva; Doenças cardiovasculares; Diabetes; Câncer; Depressão. O estudo do IEPS revelou que os idosos brasileiros vivem mais, mas acumulam múltiplas doenças crônicas e essas condições consomem boa parte dos recursos hospitalares do SUS. "De uma maneira geral, os estudos mostram que conforme as pessoas alcançam faixas de envelhecimento mais prolongado, então os idosos maiores de 80 anos, a incidência dessas doenças é maior. [...] Requer do serviço de saúde uma reorganização, um investimento financeiro relevante, para a gente garantir os direitos dessa pessoa enquanto cidadão, enquanto usuário do SUS", diz Adriana. Outro ponto que ela cita com preocupação são as quedas, que podem trazer consequências sérias e duradouras. "A queda é um evento muito importante. O idoso precisa de um acompanhamento frequente para fazer prevenções de queda, e quando isso não acontece, geralmente, procura-se um serviço de saúde após a ocorrência de uma queda, e a queda em um super idoso vai implicar em uma qualidade de vida prejudicada, muitas vezes ele vai precisar de uma prótese, muitas vezes ele não vai poder colocar uma prótese por conta de outras complicações de doenças crônicas que ele já tenha, diabetes, hipertensão, sequelas de AVC, infarto", complementa. Número de atendimentos de idosos vítimas de quedas acidentais dispara na rede pública Jornal Nacional Como o contexto social influencia a saúde Fatores como o tipo de trabalho que o idoso tinha anteriormente, a rede de apoio que ele tem, a renda, o gênero e onde ele vive são apontados por Adriana como determinantes para definir a qualidade de saúde desses pacientes. "Alimentação, nutrição, sono, atividade física, uma rede de relacionamento interpessoal, laços fortes, trabalho de qualidade, tudo isso pode interferir no envelhecimento. Falar de envelhecimento é a gente começar a falar desde a primeira infância, porque se hoje a gente já está com impacto grande por conta desse envelhecimento exponencial, você imagina daqui a um tempo, como que a gente vai estar com essas outras pessoas, essas outras faixas etárias também chegando no envelhecimento." Clínica clandestina de idosos em Limeira Wagner Morente/GCM Limeira O que os idosos pensam O engenheiro eletrônico Helvio Matzner, de 70 anos, costuma usar o SUS em Ribeirão Preto para fazer exames de rotina ou, quando necessário, passar por uma consulta mais específica. Ao g1, ele citou a demora como um dos problemas a serem solucionados na saúde pública, mas também afirmou que gostaria de que mais unidades oferecessem atendimentos voltados exclusivamente aos idosos. LEIA TAMBÉM 'Envelhecer': mercado de trabalho 60+ cresce e se torna estratégico com mudança no perfil populacional "Existem alguns hospitais aqui que já têm até o certificado de Amigo da Pessoa Idosa, mas não vi nenhuma atividade em volta disso. Esse título é dado no estado de São Paulo para todos os hospitais que têm um setor que eles atendem exclusivamente os idosos. Esse selo para os hospitais é fundamental, vamos dizer assim, na agilidade. Para você atender o idoso, geralmente, ele é uma pessoa como uma criança, ele precisa de um atendimento especial." Matzner pratica vôlei adaptado e destacou o quão acredita ser importante o esporte na saúde dos idosos. Assim como nos atendimentos, o engenheiro ponderou que as práticas esportivas para esse público também precisam ser personalizadas. "Eu acho que isso poderia inclusive servir até como exemplo, porque o esporte faz parte da saúde, da longevidade das pessoas. Não é só andar, é você praticar realmente ou levar a sério algum tipo de esporte que você possa gostar que faz. E esse gostar é fundamental para você poder manter a sua saúde, ela mantém o seu corpo bem dinâmico no dia a dia", finaliza. O engenheiro eletrônico Helvio Matzner em atividades físicas voltadas aos idosos Arquivo pessoal Veja mais notícias da região no g1 Ribeirão e Franca Vídeos: Tudo sobre Ribeirão Preto, Franca e região

FONTE: https://g1.globo.com/sp/ribeirao-preto-franca/noticia/2026/02/04/envelhecer-os-desafios-do-brasil-em-saude-publica-as-vesperas-de-populacao-ter-mais-idosos-que-criancas.ghtml


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