A culpa não é dos pais: pesquisa aponta cinco fatores que definem o que vai no prato das crianças

  • 27/05/2026
(Foto: Reprodução)
A culpa não é dos pais: pesquisa aponta cinco fatores que definem o que vai no prato das crianças Adobe Stock Quando uma criança pede biscoito no supermercado ou insiste nos doces e rejeita o legume no prato, a cena costuma ser alvo de julgamentos precipitados, que culpam as famílias e, em especial, as mães. Essa é uma leitura comum, porém incompleta e equivocada, como mostra um estudo recém-concluído conduzido pelo Instituto Pensi. A partir dos relatos de 142 pessoas ouvidas em cinco grandes centros urbanos do país, a pesquisa Comportamento Alimentar: Percepções e Desafios da Alimentação Saudável mostra que a alimentação infantil não se define apenas dentro de casa. Ela é resultado de um conjunto de fatores que antecedem a refeição: o preço dos alimentos, a jornada de trabalho dos responsáveis, o ambiente alimentar disponível, o tempo de exposição a telas e a pressão constante da publicidade dirigida às crianças. Os depoimentos revelam como esses fatores se entrelaçam nas escolhas cotidianas de famílias. Sem a pretensão de representar o país em termos estatísticos, o estudo ajuda a compreender como os pais e responsáveis negociam, na prática, o que gostariam de oferecer e o que de fato conseguem colocar no prato. As famílias sabem o que é comer bem e o problema não está na informação, mas nas condições que moldam as escolhas. Idealizada pelo Pacto Contra a Fome, com apoio da Food and Land Use Coalition(FOLU) e cofinanciamento da Fundação José Luiz Setúbal(FJLS), a pesquisa trabalhou com grupos focais online. Os encontros foram realizados entre setembro e outubro de 2025 em São Paulo, Porto Alegre, Fortaleza, Belém e Goiânia com famílias das classes AB, C e DE. Entre os domicílios participantes, 57% conviviam com uma ou duas crianças, enquanto 4% tinham três ou mais. Agora no g1 Em todos os grupos, a alimentação saudável foi associada à comida caseira: arroz, feijão, frutas, legumes e alimentos frescos. Já refrigerantes, biscoitos, salgadinhos, macarrão instantâneo e fast food foram reconhecidos como menos saudáveis. O problema está na distância entre saber e conseguir fazer: é aí que entram cansaço, preço, tempo, aceitação da criança, praticidade e publicidade. A influência da criança As narrativas indicam que as crianças são uma importante força organizadora do carrinho de compras. Pais e mães tentam garantir refeições com arroz, feijão, proteína, frutas e legumes, mas relatam dificuldade diante de pedidos por marcas específicas, embalagens coloridas, alimentos vistos em vídeos na internet ou associados a momentos de lazer. Essa influência não é trivial. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada no JAMA Pediatrics, com 96 estudos, encontrou associação entre marketing de alimentos e aumento de ingestão, escolha, preferência e pedidos de compra em crianças e adolescentes. O Ministério da Saúde, alinhado às recomendações da Organização Mundial da Saúde, afirma em seus documentos oficiais que é fundamental proteger crianças da publicidade de alimentos ultraprocessados para garantir ambientes saudáveis e prevenir obesidade e doenças crônicas. Na prática, muitas famílias não estão apenas escolhendo entre uma fruta ou um biscoito. Elas comparam uma fruta (que precisa ser comprada fresca, lavada, cortada, aceita pela criança e consumida antes de estragar) com um produto ultraprocessado barato, durável, pronto, palatável e desenhado para ser desejado. O atalho dos ultraprocessados Com presença marcante na dieta infantil, os ultraprocessados funcionam como atalho na rotina. Eles aparecem quando falta tempo, quando o orçamento aperta e também no fim de semana como lazer, recompensa ou alternativa fácil de consumir. De acordo com o Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil - ENANI-2019, a proporção de crianças de seis a 23 meses que consomem ultraprocessados foi de 80,5%. O percentual chega a 93% entre crianças de 24 meses a 59 meses. O consumo de bebidas adoçadas foi de 24,5% e 50,3%, respectivamente. Um estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), de 2026, mostrou a força desses produtos no lanche: 50% das crianças pesquisadas haviam consumido ultraprocessados no lanche no dia anterior. Escola também é ambiente alimentar Na nossa escuta, a escola apareceu como um dos ambientes mais decisivos para a alimentação infantil. Nas famílias com crianças em escolas públicas, a alimentação escolar foi descrita como referência de refeição equilibrada e, muitas vezes, como segurança: a criança “come de verdade” na escola. Entre famílias de renda mais alta, a preocupação se desloca para lancheira, a cantina e a qualidade nutricional das opções disponíveis. Em 2025, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) anunciou diretrizes para reduzir gradualmente a compra de processados e ultraprocessados e ampliar alimentos in natura ou minimamente processados. O mínimo dessa categoria passa de 80% em 2025 para 85% a partir de 2026, enquanto o limite para processados e ultraprocessados cai para 10%. A escola não é, portanto, apenas um lugar para ensinar o que é alimentação saudável. Ela é um ambiente alimentar. Por isso, políticas escolares precisam envolver o que é servido, vendido e anunciado, bem como o que aparece na cantina, o que circula no entorno da escola e como crianças participam das práticas alimentares. Desigualdades espelhadas no prato Os grupos de pesquisa evidenciaram desigualdades na alimentação infantil conforme a renda, o tempo disponível e a infraestrutura das famílias. Nos grupos de maior renda houve planejamento, acesso a frutas, verduras e laticínios, e também utilização do fast food e o delivery como estratégias para recompensa ou lazer. Nos grupos C e DE, o esforço principal era garantir o básico: arroz, feijão, alguma proteína, leite, pão e alimentos que sustentem, enquanto frutas, verduras, peixe e laticínios apareciam como desejáveis, porém condicionados ao preço. O IBGE aponta que a insegurança alimentar grave atingiu 3,2% dos domicílios brasileiros em 2024, chegando a 6,3% dos domicílios no Norte e 4,8% no Nordeste. Nos relatos, quando o orçamento é instável, as famílias são condicionadas a realizar substituições e escolhas por alimentos de menor qualidade nutricional e, muitas vezes, menos saudáveis, mas que “sustentam” e “não estragam”. O que fazer? Políticas públicas! Os registros de pais e mães expressam preocupação em oferecer alimentos mais saudáveis, mas esse desejo compete com uma rotina que favorece o alimento ultraprocessado. A resposta a isso não pode ser culpar as famílias, especialmente as mães e cuidadoras, que ainda têm maior carga de trabalho doméstico, cuidado com os filhos e com a alimentação. Nesse sentido, estudos brasileiros são referência ao demonstrar que os modos de viver, adoecer e se alimentar estão condicionados pelas determinações sociais da saúde, como renda, trabalho, acesso aos alimentos, publicidade, território e desigualdades de gênero. Essa compreensão é fundamental para retirar das famílias, especialmente das mães e cuidadoras, o peso da culpa individual pela alimentação infantil e deslocar o debate para pensar que tipo de sociedade estamos construindo coletivamente para garantir o presente e o futuro das crianças. Proteger a alimentação infantil exige uma combinação de medidas. A primeira é fortalecer a alimentação escolar, garantindo refeições saudáveis, culturalmente adequadas e com alimentos in natura e minimamente processados. A segunda é regulamentar a alimentação oferecida em cantinas de escolas, no entorno do ambiente escolar e a publicidade de alimentos para as crianças. A terceira é contribuir com as condições estruturais que podem tornar alimentos saudáveis mais acessíveis, práticos e desejáveis. A quarta é apoiar quem cuida da alimentação em casa, reconhecendo que planejar, comprar, cozinhar, armazenar e negociar preferências com as crianças é trabalho e, muitas vezes, trabalho concentrado nas mulheres. A alimentação das crianças não depende só dos pais porque o prato das crianças é moldado por um conjunto de fatores sociais, econômicos e culturais. Ele começa na renda, passa pelo mercado, pela escola, pela tela do celular, pela jornada de trabalho e pelo cuidado doméstico. Se queremos que crianças comam de maneira mais saudável, precisamos parar de tratar a alimentação infantil como uma escolha individual das famílias de forma isolada. Ela é fruto de um sistema e uma responsabilidade coletiva. Nada a divulgar. Bruna Liria Avelhan, Claudia Cheron König e Renan Rosolem Machado não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que poderiam se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelaram nenhum vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.

FONTE: https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/05/27/a-culpa-nao-e-dos-pais-pesquisa-aponta-cinco-fatores-que-definem-o-que-vai-no-prato-das-criancas.ghtml


#Compartilhe

Aplicativos


Locutor no Ar

Peça Sua Música

No momento todos os nossos apresentadores estão offline, tente novamente mais tarde, obrigado!

Top 5

top1
1. Don't Let Me Down

The Beatles

top2
2. Epitaph

King Crimson

top3
3. Feeling Good

Nina Simone

top4
4. Somebody To Love

Queen

top5
5. Lady Laura

Roberto Carlos

Anunciantes